23 de outubro de 2015

Sobre como “quase” me mataram em vida...

Minha cara de quem tá morrendo... 
Tenho certeza que todo mundo, em algum momento, já pensou em como seria morrer. E não estou falando do debate religioso/filosófico sobre o que vem depois. Mas sim dos minutos que antecedem o ato em si. A fechada de olhos final. Qual seria a reação das pessoas? Quem ia chorar? Quem pediria desculpas ali nos últimos segundos? Quem finalmente falaria aquele “eu te amo" engasgado há tanto tempo? Quem realmente se importaria com a sua ausência? Certeza que nesses pensamentos você também planejou “ ahhhh não vou pra luz não, quero ver quem vai ficar triste de verdade” kkkk anda confessa, já pensou isso...

Aí te conto que sou privilegiada hahahahah (baixou aloka) eu vivi tudo isso VIVAAAA. Explico. No dia 17 de setembro abri a primeira ressonância depois de 10 ciclos semanais de Taxol... e, diferente da expectativa  geral, especialmente médica, lá dizia que o tratamento não tinha funcionado e a doença havia progredido a ponto de ter um tumor novo.  Dotô não conseguiu disfarçar a surpresa, escolheu as palavras e eu ali ouvindo tudo aquilo e pensando “resumindo... fodeu... vou morrer”.  

Fiquei 48h catatônica. Olhando para o nada sem conseguir evitar as lágrimas. A cabeça a mil. A loucura de tudo é que a única certeza que temos na vida é a morte. Ela chega. Pra todo mundo. E muitas vezes sem pedir licença. Acontece e pronto acabou. Muitas vezes não dá tempo nem de refletir. Você tá lá dirigindo seu carro, vem um imbecil bêbado e tchau mundo. Masssss, poucas pessoas realmente se dão conta disso. A vida acaba... cedo ou tarde. E não importa as milhares de horas que investiu estudando, ou trabalhando, ou os emails que tem pra responder, as metas financeiras que estabeleceu, aquela blusa linda que não usou esperando “a ocasião”, as pendências emocionais. Nada importa. Acho que todos deveriam ter esse encontro com a realidade... pensar no fim abre os olhos para muitas coisas e sentimentos.   

Virar pacote sem ver ela
crescer? Sem chance!
Em dez dias vivi com a certeza de que ia morrer. E vou te dizer...  é uma dor profunda... daquelas que dá vontade de gritar. Olhava pra minha sobrinha e a dor cegava “não a verei crescer”. Olhava pra minha mãe e pensava “será que ela tem noção do quanto a amo? Não queria nunca causar esse sofrimento a ela”. Olhava pra mim e pensava “como foi que cheguei a isso? PQPPPP³³³”.

Tive que conversar sobre testamento. Pensei em virar vidaloka bêbada, drogada, jogada na cracolândia hahahaha ou vender tudo, me mudar para o caribe rica pra morrer com glamour. Ouvi muitas vezes que tudo acontece de acordo com a vontade de Deus. Vi olhos lacrimejando, choro preso. Vi a dó estampada na testa de muitos e alguns até já se conformando “é assim mesmo Ana”.  Tive também que aliviar algumas almas angustiadas pela culpa “relaxa, não vou puxar seu pé a noite ;)”. Também recebi  contato de pessoas que não falo há aaaaaaaaaaanos e todos dispostos a realizar meus últimos desejos. Até aqui no blog uma pessoa notou que fazia tempo que não postava e comentou “Acho que ela faleceu”...

Pois é Brasil, me mataram antes da hora... e eu “morri” tb.  Foi aí que lembrei de Paulo Leminski, que muitas vezes traduziu em versos meus sentimentos:

“Já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma”

Povo achando que eu tava morrendo e eu viajando pra evento do
Outubro rosa kkkk
MORRER CLAREIA A ALMA... Ei? Como assim morrer? Pq estão me matando quando me sinto extremamente viva? Tenho 32 anos e “carrego em mim todos os sonhos do mundo”.  E minha chance?  E o filho que ainda vou  ter? E a casa com jardim? E o projeto de ajudar mulheres a enfrentarem o câncer com bom humor? E o casamento dazamigas? E o sertanejão de domingo com as meninas? E os brindes? Os churrascos? E a delícia de viver uma rotina em paz? E o amor que vai dividir as alegrias e tristezas até o fim? E a festa de 15 anos da Gi? E meu mochilão pela Europa? E as aulas de dança do ventre? E a viagem pra andar na maior montanha russa do mundo? E tantas coisas que quero sentir e viver por aqui?

Com a alma clara, consegui ver o óbvio... as pessoas não entendem o câncer. Ele não significa sentença de morte fulminante. No meu caso, significa apenas que, diante do que a medicina oferece hoje, terei compromisso com exames de controle e medicações. Como um diabético, hipertenso ou cardiopata. Posso morrer de câncer, atropelada, de choque elétrico, de ataque do coração... mas senta que eu vou te dar uma notícia: VC TAMBÉM! Vamos ao clichê: QUEM É QUE SABE O DIA DE AMANHÃ?

Pulando 7 ondas atrasada pra ver se o ano começa kkkk
Daí, com as  rédeas na mão e a cabeça de volta ao lugar, avaliei, pensei, pesquisei, arregacei as mangas, quebrei o cofrinho e fui num médico pica das galáxias no Sírio Libanês (eu amo e confio no meu médico, mas ouvir uma segunda opinião pode ajudar)... 3 horas de avaliação e ele disse “você está melhor que eu” “seu exame está errado... laboratório meia boca” “esse nódulo tá localizado em um lugar que não fede nem cheira no fígado, vc não corre risco” “a doença está sob controle” “faz o PetScan pra você ver”.

Foi como se ele usasse o desfibrilador em mim e eu voltasse a respirar hahahaha Mas, ainda tinha o petscan pra enfrentar... é o exame mais assustador do mundo oncológico pq ele mede o nível de atividade do tumor (o qto ele está vivo e te fodendo) e também encontra nódulos onde nenhum exame pega.  Fiz o exame com o cú na mão, desesperada... foram dias de angústia até o resultado. E quando abri foi sem dúvida um dos maiores alívios da vida:

Não tem tumor novo. Está apenas no fígado. O nódulo maior diminuiu e está com baixííííssima atividade. Como sugeriu o médico: a doença está sob controle a ponto de nem precisar mais de quimioterapia.  Sim meus caros, prazer... Ana Michelle, mas pode me chamar de milagre, sortuda, rabo pra lua ou o que vc achar mais adequado.

Claro, ainda tenho um longo caminho e continuou em tratamento... mas gente, não estou correndo risco. A meta agora é diminuir ainda mais essa pereba maldita, zerar essa atividade, iniciar controle com hormonioterapia e aí operar e arrancar esse pedaço podrinho fora. Qdo falamos em metástase, não dá pra garantir uma cura completa (viver sem nenhuma medicação ou sem precisar de exames). A palavra certa agora é REMISSÃO... como falei, sempre terei que fazer medicações anticâncer que normalmente não tem nenhum efeito colateral  que debilite e dá pra viver 100% normal (tendo dor de barriga a cada vez que for abrir exame, mas ainda assim normal).

Exposição Meninas de Peito... #orgulho
Ontem iniciei uma medicação alvo, inteligente, cara, foda, recém chegada no Brasil. Daqui a 3 sessões refaço os exames pra ver a evolução.... e sabe de uma coisa? Tenho certeza que vou vir aqui contar que estou bem, em remissão e entrando no controle apenas com hormonioterapia e bloqueio do her 2 (o defeitinho de fábrica que eu carrego e causou tudo isso).

Então gente, o que eu quero dizer com tudo isso é que até segunda ordem to vivinha da silva... fui até pra balada arrasando no decote e peruca essa semana... estou com a vida super movimentada por causa do outubro rosa, muitos eventos, muitas ações, muitas vidas sendo mudadas graças ao Meninas de Peito (orgulho do meu projetinho).

Achei que ia morrer já torrei grana kkk
Xiiiii deu ruim....
“Morrer”, me fez enxergar exatamente o que eu quero pra mim... e também me fez ver com clareza a alma dos que me cercam... sério mesmo. Acho que você deveria fazer esse exercício...  sinta “como se não houvesse amanhã”, será mesmo que vc não está gastando vida com sentimentos tóxicos, orgulhos, vaidades, aparência, idiotice. Não seja raso e superficial... nunca. Ser profundo é o que nos faz humanos de verdade. E de todas as reflexões que vivi na “morte em vida” tem uma coisa que não me arrependo... eu vivo de verdade, eu sinto de verdade... e profundamente. Se isso me trouxe mágoas e decepções, paciência... eu me entrego a tudo, à dor e à alegria. E não carrego culpa nenhuma por isso e nem acho que o câncer intruso é resultado dos sapos que engoli caladinha ao longo da vida. A vida é feita de escolhas. E eu escolho continuar vivendo profundamente cada dia triste e feliz que o universo me oferecer... só assim vou poder colher maturidade e experiências.  E quer saber? Ainda tenho muuuuuuuuuuuuuuuito o que viver, se serão 5 dias ou 50 anos, eu não sei... mas vou continuar sempre entregando o meu 100% em tudo.  

A todos que estão ao meu lado, perto ou distante,  toda minha gratidão e amor!!!  Tamojunto caraiiiiiiiiiii <3

E tenho dito...

MORRER DE VEZ EM QUANDO É A ÚNICA COISA QUE ME ACALMA....  


bjs

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